É público e notório que o tema Transformação Digital está em alta. Todo mundo está falando sobre isso, ao ponto que, dependendo da área que as pessoas atuam (e estou desconsiderando a área de tecnologia), elas se sentem “obrigadas” a falar que sabem o que Transformação Digital significa, e que a empresa em que trabalham está com iniciativas dessa natureza.
Na verdade a grande maioria não sabe, mas acha que ao assumir isso demonstra uma “fraqueza” em um mundo que esbarra no tema Transformação Digital a cada centímetro percorrido.
As pessoas na Transformação Digital
Voltando à variável “pessoas que desconhecem o que é Transformação Digital”, devemos lembrar que essas pessoas são os funcionários de empresas que estão na fase de Planejar ou Executar a Transformação Digital. No entanto, essas pessoas carregam dúvidas, ansiedades, e muitas vezes ficam de fora desse importante momento de transformação nas empresas. Isso quando não atuam contra esse processo, as vezes até inconscientemente.
A falta de um claro entendimento das empresas sobre o que é Transformação Digital, aliado ao fato das pessoas e funcionários não conhecerem o que isso significa, resulta em um Plano de Jornada Digital frágil, inconsistente, mesmo que elaborado por uma consultoria experiente.
ERP e CRM: lições realmente aprendidas?
Me preocupa o fato das empresas estarem próximas de cometerem os mesmos equívocos de grandes implantações tecnológicas de um passado não muito distante — ERP e CRM.
Implementações de plataformas como SAP ERP, Oracle ERP e, anos depois, Salesforce CRM, tinham um ponto em comum: o problema raramente foi o sistema.
O padrão dos sérios equívocos era outro: Projeto tratado como TI, não como transformação; Processos ineficientes apenas digitalizados; Dados inconsistentes; Patrocínio executivo superficial; Usuários resistentes; ROI prometido em slides, não na prática.
O ERP foi a primeira grande e complexa solução que “atravessou” horizontalmente as organizações. A quebra de silos era necessária e um grande desafio. O que aconteceu em grande parte das implantações? A desejada visão integrada de processos ficou em segundo plano. Como consequência, pouquíssimos são os projetos de ERP que usam todas as funções implantadas.
A conclusão do principal motivo para tantos fracassos no CRM foi: CRM não é tecnologia, e sim, uma estratégia de relacionamento com o cliente. Mais uma vez, foi demonstrado que pessoas e processos são vitais em qualquer adoção de nova tecnologia.
Gestão de Mudanças
Transformação e Inovação significam sair da zona de conforto elevado à décima potência. O playbook de Gestão de Mudanças utilizado em projetos anteriores não é mais útil.
Mindset é o novo foco, onde se deve entender o modelo mental das pessoas. O aspecto comportamental continua importante, mas é o mindset das pessoas que deve ser entendido e trabalhado. As abordagens de Gestão de Mudanças são outras, são dinâmicas.
O ambiente hoje está mais heterogêneo do que nunca visto antes, uma mistura de gerações (baby boomers, X, Y, Millennials e Z), cada qual com seu valor, hábitos, ideias e expectativas, mas com entendimentos e experiências diferentes.
Gestão de Mudanças agora é um processo contínuo e dinâmico, assim ele não pode mais ser atrelado a projetos. Mudança — e sua gestão — deve estar no DNA de cada pessoa. Isso é mindset.
Recursos Humanos tem vaga nesse jogo?
Sem dúvida alguma. É aí que Recursos Humanos entra, e tem que entrar pra valer. A função de RH na Transformação Digital vai muito além de auxiliar na contratação de uma consultoria de Change Management.
O ir além a que me refiro é entender o novo ambiente de trabalho, como as pessoas irão se relacionar na nova economia dentro e fora da empresa, como será o relacionamento empregado/empresa, o relacionamento pessoas/robôs, entender o home office que está migrando para anywhere office, bem como novas formas de avaliação de desempenho, de capacitação e de busca de talentos.
O mindset da empresa está adequado para isso? Inclusive do CEO e dos board members? Tudo isso deve ser parte da locomotiva da Transformação Digital, e não de um vagão.
Recomendações práticas
- CEO: Entenda que RH é protagonista, e patrocine isso.
- CHRO: Não espere ser chamado, assuma papel de destaque.
- CIO: Não inicie essa jornada sem o papel do RH bem definido.